Meditação Esforçada...
... sobre um poema barroco
"A minha bela ingrata
Cabelos de ouro tem, fronte de prata
De aço o coração, de bronze o peito"
JERÓNIMO BAÍA
sempre que leio os poetas barrocos
muito me agrado com seus bons ofícios
à língua portuguesa: artifícios
que brilham de beleza embora ocos
por vezes. outros poetas (bem poucos)
também souberam criticar os vícios
do excesso dse palavra: tais indícios
anuunciavam já outros rebocos
da grande construção da poesia.
pois sendo assim que posso eu dizer
hoje num verso que mal te retrata?
dizer que a minha amada em fantasia
também (soubera eu escernecer)
cabelos de ouro tem, fronte de prata?
e se és assim ingrata quanto bela
será que posso ainda acrescentar
que é de pedra fria o teu olhar?
(ou maldizer a minha triste estrela
por tanto a desejar e por não tê-la?)
pode um poeta hodierno delirar
e em rimas esforçadas delinear
poemas ofuscantes numa cela?
será mal necessário entender
talvez que a poesia é uma torrente
que não regressa nunca ao mesmo leito
mesmo que eu tenha para tal de ter
(aparte o trocadilho e o parco enfeite)
de bronze o coração, de aço o peito.
(e embora não consiga
saber de cor a cor
dos versos que desdigo
quando não digo nada
e sempre me persiga
a aura desse amor
eis pois o que dedico
à minha bela ingrata:
cabelos de ouro tem, fronte de prata)
Publicado por poezine em
04:19 PM
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