poemas de affonso gallo
junho 2004
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junho 17, 2004


Declaração de Princípios...


... em rimas apenas toantes


e eis-me então usando e abusando
de glosas com que sempre ando gozando
alguma coisa (nem que seja eu próprio
que em coisa me transformo quando escrevo:
brinquedo de algum mais esquizofrénico
grupo exibicionista de neurónios).

de isso não me contento nem espanto
embora tenha sempre assim um tanto
(como direi?) urinol oratório
ou um monte de esterco em que me enterro
tentando no entanto ser higiénico
enquanto me aconchego entre fólios.



Publicado por poezine em 04:27 PM | Comentar (0)

Soneto Portalegrense


em portalegre sê portalegrense
embora tal não possas nunca ser.
chegaste agora mas vais entender:
portalegrense é só quem o merece.

não digas nunca mal: nada parece
melhor do que aqui há. aqui viver
é raro privilégio: qualquer ser
que aqui venha poisar cá adormece.

é esta a melhor terra deste mundo
e de um outro qualquer. se a isto aderes
podes ficar: aqui a gente é boa.

mas se renegas isto és vagabundo
ser neste burgo amado tal não esperes
e faz como eles: vai para lisboa.



Publicado por poezine em 04:23 PM | Comentar (0)

Meditação Esforçada...


... sobre um poema barroco


"A minha bela ingrata
Cabelos de ouro tem, fronte de prata
De aço o coração, de bronze o peito"

JERÓNIMO BAÍA


sempre que leio os poetas barrocos
muito me agrado com seus bons ofícios
à língua portuguesa: artifícios
que brilham de beleza embora ocos
por vezes. outros poetas (bem poucos)
também souberam criticar os vícios
do excesso dse palavra: tais indícios
anuunciavam já outros rebocos
da grande construção da poesia.
pois sendo assim que posso eu dizer
hoje num verso que mal te retrata?
dizer que a minha amada em fantasia
também (soubera eu escernecer)
cabelos de ouro tem, fronte de prata?

e se és assim ingrata quanto bela
será que posso ainda acrescentar
que é de pedra fria o teu olhar?
(ou maldizer a minha triste estrela
por tanto a desejar e por não tê-la?)
pode um poeta hodierno delirar
e em rimas esforçadas delinear
poemas ofuscantes numa cela?
será mal necessário entender
talvez que a poesia é uma torrente
que não regressa nunca ao mesmo leito
mesmo que eu tenha para tal de ter
(aparte o trocadilho e o parco enfeite)
de bronze o coração, de aço o peito.

(e embora não consiga
saber de cor a cor
dos versos que desdigo
quando não digo nada
e sempre me persiga
a aura desse amor
eis pois o que dedico
à minha bela ingrata:
cabelos de ouro tem, fronte de prata)



Publicado por poezine em 04:19 PM | Comentar (0)

Um Recado Para o José Vaz...


... mas dedicado ao Nuno Nascimento:


o grande e vasto vate josé vaz
que um dia me dedicou um poema
(fê-lo não sei se por valer a pena
mas não é isso agora que me traz)

além de ter apetite voraz
sempre que lhe dão a escolher um tema
de discussão que provoque celeuma
gosta muito de chatear um rapaz

chamado antónio e que lhe deve massa
(embora não seja essa a razão).
pois eu tenho do antónio um recado:

ó vaz pára de lhe moer a carcassa
que o gajo até sofre do coração
mas se quiseres faz teatro em todo o lado



Publicado por poezine em 04:12 PM | Comentar (0)

Maldita Endorfina!


comi agora mesmo um chocolate
pra compensar hormonas que o meu corpo
há muito não produz. mas foi bem pouco
o doce. e assim me deu pró disparate

de tamanho quilate. ai estou tão tenso
que fico verde só de imaginar
(e quase me apetece vomitar)
a preocupação com que já penso:

maldita endorfina em mim assaz
faltosa e rabugenta, quando há,
eu quero, eu te reclamo, anda cá
(só eu sei bem a falta que me faz).

estarei da endorfina dependente?
finjo que o sou, pois me sinto acossado
pelas tribulações do meu passado:
a luz dos olhos que me faz difernte.

porque uso deste doce, se o não uso?
"transforma-se o amador na cousa amada"
(isto era uma piada. e privada.)
não vou explicar melhor: seria abuso.



Publicado por poezine em 04:08 PM | Comentar (0)